sexta-feira, 6 de abril de 2012

DOMINGO DE PÁSCOA - 2012


Domingo de Páscoa
A liturgia deste domingo celebra a ressurreição e garante-nos que a vida em plenitude resulta de uma existência feita dom e serviço em favor dos irmãos. A ressurreição de Cristo é o exemplo concreto que confirma tudo isto.
A primeira leitura apresenta o exemplo de Cristo que “passou pelo mundo fazendo o bem” e que, por amor, se deu até à morte; por isso, Deus ressuscitou-O. Os discípulos, testemunhas desta dinâmica, devem anunciar este “caminho” a todos os homens.
O Evangelho coloca-nos diante de duas atitudes face à ressurreição: a do discípulo obstinado, que se recusa a aceitá-la porque, na sua lógica, o amor total e a doação da vida não podem, nunca, ser geradores de vida nova; e a do discípulo ideal, que ama Jesus e que, por isso, entende o seu caminho e a sua proposta (a esse não o escandaliza nem o espanta que da cruz tenha nascido a vida plena, a vida verdadeira).
A segunda leitura convida os cristãos, revestidos de Cristo pelo baptismo, a continuarem a sua caminhada de vida nova, até à transformação plena (que acontecerá quando, pela morte, tivermos ultrapassado a última barreira da nossa finitude).


LEITURA I – Act 10,34.37-43

Leitura dos Actos dos Apóstolos

Naqueles dias,
Pedro tomou a palavra e disse:
«Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia,
a começar pela Galileia,
depois do baptismo que João pregou:
Deus ungiu com a força do Espírito Santo a Jesus de Nazaré,
que passou fazendo o bem
e curando a todos os que eram oprimidos pelo Demónio,
porque Deus estava com Ele.
Nós somos testemunhas de tudo o que Ele fez
no país dos judeus e em Jerusalém;
e eles mataram-n’O, suspendendo-O na cruz.
Deus ressuscitou-O ao terceiro dia
e permitiu-Lhe manifestar-Se, não a todo o povo,
mas às testemunhas de antemão designadas por Deus,
a nós que comemos e bebemos com Ele,
depois de ter ressuscitado dos mortos.
Jesus mandou-nos pregar ao povo
e testemunhar que Ele foi constituído por Deus
juiz dos vivos e dos mortos.
É d’Ele que todos os profetas dão o seguinte testemunho:
quem acredita n’Ele
recebe pelo seu nome a remissão dos pecados.




SALMO RESPONSORIAL – Salmo 117 (118)

Refrão 1: Este é o dia que o Senhor fez:
exultemos e cantemos de alegria.

Refrão 2: Aleluia.

Dai graças ao Senhor, porque Ele é bom,
porque é eterna a sua misericórdia.
Diga a casa de Israel:
é eterna a sua misericórdia.

A mão do Senhor fez prodígios,
a mão do Senhor foi magnífica.
Não morrerei, mas hei-de viver
para anunciar as obras do Senhor.

A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se pedra angular.
Tudo isto veio do Senhor:
é admirável aos nossos olhos.


LEITURA II – Col 3,1-4

Leitura da Epístola do apóstolo São Paulo aos Colossenses

Irmãos:
Se ressuscitastes com Cristo,
aspirai às coisas do alto,
onde está Cristo, sentado à direita de Deus.
Afeiçoai-vos às coisas do alto e não às da terra.
Porque vós morrestes
e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.
Quando Cristo, que é a vossa vida, Se manifestar,
também vós vos haveis de manifestar com Ele na glória.



SEQUÊNCIA PASCAL

À Vítima pascal
ofereçam os cristãos
sacrifícios de louvor.

O Cordeiro resgatou as ovelhas:
Cristo, o Inocente,
reconciliou com o Pai os pecadores.

A morte e a vida
travaram um admirável combate:
Depois de morto,
vive e reina o Autor da vida.

Diz-nos, Maria:
Que viste no caminho?

Vi o sepulcro de Cristo vivo
e a glória do Ressuscitado.
Vi as testemunhas dos Anjos,
vi o sudário e a mortalha.

Ressuscitou Cristo, minha esperança:
precederá os seus discípulos na Galileia.

Sabemos e acreditamos:
Cristo ressuscitou dos mortos:
Ó Rei vitorioso,
tende piedade de nós.


ALELUIA – 1 Cor 5,7b-8a

Aleluia. Aleluia.

Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi imolado:
celebremos a festa do Senhor.


EVANGELHO – Jo 20,1-9

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João

No primeiro dia da semana,
Maria Madalena foi de manhãzinha, ainda escuro, ao sepulcro
e viu a pedra retirada do sepulcro.
Correu então e foi ter com Simão Pedro
e com o discípulo predilecto de Jesus
e disse-lhes:
«Levaram o Senhor do sepulcro
e não sabemos onde O puseram».
Pedro partiu com o outro discípulo
e foram ambos ao sepulcro.
Corriam os dois juntos,
mas o outro discípulo antecipou-se,
correndo mais depressa do que Pedro,
e chegou primeiro ao sepulcro.
Debruçando-se, viu as ligaduras no chão, mas não entrou.
Entretanto, chegou também Simão Pedro, que o seguira.
Entrou no sepulcro
e viu as ligaduras no chão
e o sudário que tinha estado sobre a cabeça de Jesus,
não com as ligaduras, mas enrolado à parte.
Entrou também o outro discípulo
que chegara primeiro ao sepulcro:
viu e acreditou.
Na verdade, ainda não tinham entendido a Escritura,
segundo a qual Jesus devia ressuscitar dos mortos.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Em Quinta-Feira Santa - Sé Catedral do Porto

 Homilia da Missa Crismal do Senhor Bispo do Porto
- Prossigamos pois e confiemos sempre!
“Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, ao abrir o livro, encontrou a passagem em que estava escrito: ‘O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres…”
Caríssimos irmãos, que tão vivamente preencheis as naves desta Sé, na Missa Crismal de 2012: Tudo é importante e decisivo agora e aqui. É-o, antes de mais, a Palavra escutada e nunca por demais recebida e apreendida.
 Saúdo-vos a todos e a cada um, com especial referência aos presbíteros, que nesta Missa renovarão as promessas sacerdotais; também aos caríssimos diáconos, aos membros dos institutos religiosos e seculares, aos seminaristas e ao laicado. A todos, em nome pessoal e dos Senhores Bispos, desejo desde já a vivência plena e a consequência perfeita do Tríduo Sagrado que logo começa em toda a Igreja.
Naquele dia, como ouvimos, o Senhor Jesus leu em plena sinagoga de Nazaré um antigo texto, há muito por cumprir. Da sua boca, as palavras de Isaías saíram então com a força única que só Ele lhes podia dar: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres…”.
Caríssimos irmãos sacerdotes, a quem hoje particularmente me dirijo: Pelo sacramento da Ordem, no grau sacerdotal que recebestes, estais habilitados e mandatados para prolongar no tempo o realismo daquele sábado em Nazaré; para que também se cumpra “hoje mesmo” o que em Jesus começou por fim.
- E com que urgência o deve ser, de facto! Pobres de tantas pobrezas, antigas e novas pobrezas, rodeiam-nos, interpelam-nos, instam-nos constantemente, direta ou indiretamente o fazem… A presente “crise” atinge dum modo ou doutro a todos; e, quanto à resposta, assim deverá ser, pois a todos incumbe, especialmente aos mais capazes de a dar.
Da nossa parte, mesmo quando não temos grandes meios materiais para o fazer. Temos o que Pedro tinha, quando respondeu ao mendigo da Porta Formosa: “Não tenho ouro nem prata, mas o que tenho, isto te dou: Em nome de Jesus Cristo nazareno, levanta-te e anda”. Acrescentando os Atos dos Apóstolos: “E, segurando-o pela mão direita, ergueu-o” (Ac 3, 6-7). Tudo essencial, tudo importante, neste trecho e hoje.
Disto mesmo não nos podemos dispensar, pois antes de mais o recebemos. Recebemos Cristo como resposta de Deus ao mundo; e, quanto mais O recebermos como força, substância e verdade de cada um dos nossos dias cristãos e sacerdotais, tanto mais O transmitiremos aos outros, quer como resposta a necessidades urgentes, quer como significado das circunstâncias todas, ainda as mais perplexas.
Mas deixai-me repetir, caríssimos irmãos sacerdotes: Tal acontecerá assim, e tanto mais assim, quanto mais suceder connosco mesmos, mendigos perpétuos da misericórdia divina e buscadores constantes do rosto de Cristo, que em nós se reflita para o bem de todos.
Sabemos de facto que assim é e será, como sempre o foi. Onde fixarmos o coração e o olhar interior, daí mesmo iremos ao encontro dos outros. Da montanha de Deus trouxe Moisés tanta luz, que nem o lenço lhe ofuscava o rosto; do monte Tabor desceram os discípulos, mal calando quanto tinham visto e ouvido. Eternamente fixado no Pai, o rosto de Cristo irradiava Deus: “Quem me vê, vê o Pai”, disse Ele a Filipe (Jo 14, 9).
Quem diz “Pai” refere também a origem, a fonte e a raiz; e a presente “crise”, nascida de tanto despiste de olhares e desejos, só pode resolver-se voltando à origem, à fonte e à raiz - e bem “radicalmente”.
Começando em nós, caríssimos sacerdotes. Da citada passagem dos Atos dos Apóstolos, com Pedro a oferecer o que realmente tinha – o nome seguro dum Jesus bem vivo! -, às mil e uma ações caritativas que hoje nos impendem, repetem-se as incansáveis demonstrações de que, a partir da nossa prioritária ligação a Cristo, é possível responder a muitas pobrezas, mesmo quando não haja “ouro nem prata”. No nosso ministério sacerdotal e pastoral, é esse o princípio, o tesouro e o sacramento – carisma tornado ministério, para que os gestos de Cristo se reproduzam agora.
Tudo, caríssimos sacerdotes, tudo o que pudermos fazer para aviventar entre nós a graça incontida por que o mundo espera; tudo o que pudermos incrementar de encontros sacerdotais de oração e vida; tudo o que nos ajudar a manter o coração em Cristo, na labareda viva duma vocação constante: tudo isto é importante e prioritário, para podermos responder às dificuldades acrescidas de quantos nos procuram.
– Como se tornam evidentes e incisivas nestes tempos as palavras de Cristo, há tanto recolhidas! Estas mesmas, de primeiríssima aplicação sacerdotal e pastoral: “Quem permanece em mim e Eu nele, esse dá muito fruto, pois sem mim nada podeis fazer”. Para prosseguir, positivamente: “Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes, e assim vos acontecerá. Nisto se manifesta a glória do meu Pai: em que deis muito fruto e vos comporteis como meus discípulos” (Jo 15, 5 ss).
Caríssimos irmãos: nas atuais circunstâncias – como sempre, aliás -, só não responderemos ao que não permitirmos que Cristo responda através de nós. Por isso mesmo, a prioridade sacerdotal e pastoral das nossas vidas está na relação viva com Cristo vivo, que nos proporcionará sempre o que recebe do Pai, na força do Espírito. Só por nós, mesmo com a alegada “boa vontade”, conseguiríamos porventura alguma coisa que adiasse, mas nada que definitivamente resolvesse. Com Cristo, conseguiremos tudo, do “tudo” de Deus, que a nós próprios surpreenderá também. Como esclareceu São Paulo: “Tal confiança, porém, nós a temos diante de Deus, por meio de Cristo. Não é que sejamos capazes de conceber alguma coisa como de nós mesmos: é de Deus que provém a nossa capacidade. É Ele que nos torna aptos para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do Espírito” (2 Cor 3, 4-6).
Confiemos pois, especialmente nós, os sacerdotes, que nem a promessa nem os tempos que vivemos são para menos. Sobretudo, que não seja por falta de convicção nossa que diminua a esperança das comunidades ou dos que nos procuram. E repitamos a certeza de Cristo, nossa também pelo sacramento: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque Ele me ungiu para anunciar a boa nova aos pobres”.
Repetir esta certeza vale infinitamente mais do que demorar em velhas dúvidas ou hesitações escusadas. E nem queiramos saber imediatamente como se resolverão as coisas; demos oportunidade a Deus para as resolver em nós e através de nós, do modo que Ele próprio escolher. Não há outra atitude cristã, nem há outra qualificação pastoral.

Na programação específica do corrente ano da Diocese, incidimos particularmente na problemática da família e da juventude. “Problemática”, disse, uma vez que realidades que podiam ser normais e correntes enfrentam agora desafios de monta. As famílias deparam, ou podem vir a deparar, com obstáculos grandes e de vário tipo: alguns são materiais e sociais, referentes ao que lhes devia ser proporcionado e de facto não é, como indubitavelmente merecia, para o bem comum de todos; outros são de ordem moral e cultural, por deficiente preparação humana e relacional, que tantas vezes impede os futuros ou atuais cônjuges de entenderem o que deveriam ser enquanto tais; também de ordem institucional, por falta de contemplação pública e legal da realidade familiar, como base e escola da sociabilidade humana – pela complementaridade e conjugação homem - mulher, pela vinculação afetiva, solidária e intergeracional dos seus membros, pela vida naturalmente concebida e processada, num ventre realmente materno... Em muito se denota a redução individualista da sensibilidade corrente, em que o ético e o moral pouco ultrapassam o que a cada um pareça ou apeteça, bastando que haja meios técnicos para o obter e não devendo a lei senão corresponder-lhe...
No lema diocesano que adotámos, a propósito da família e da juventude, enunciamos “viver em comunhão, formar para a comunhão”. E disso mesmo se trata, porque não se refere a junções eventuais de indivíduos, mas à conjugação fundamental de pessoas, seres em relação que assim mesmo se definem e realizam.
- Pois bem, caríssimos irmãos e irmãs – e agora nós todos, clérigos, consagrados ou leigos -, que prioridade damos a tal verdade, para que o seja concretamente nas vidas vividas e convividas? Sejam as nossas comunidades eclesiais centros ativos e assim mesmo exemplares de coexistência solidária, considerando bem o envolvimento familiar de cada um dos seus membros; atenda-se sempre mais e melhor ao crescimento global – “em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (Lc 2, 52) – de cada criança, adolescente ou jovem -, formando e apoiando os pais, os educadores e os catequistas, para que tal possa realmente acontecer. E nisto mesmo imitando a Jesus Cristo, nosso primeiro educador, que com tanta autenticidade e persistência formou os seus discípulos – esses mesmos que depois enviou para constituírem a imensa família dos filhos de Deus.
Caríssimos irmãos no sacerdócio, no diaconado, ou no comum batismo que faz de nós a Igreja de Cristo, para Deus e para o mundo: Não é esta a altura de ir mais longe em considerações, numa celebração aliás repleta de momentos significativos, como os que se seguem, com a renovação das promessas sacerdotais e a bênção dos santos óleos. Referi-me especialmente aos sacerdotes, como noutras ocasiões o tenho feito aos diáconos ou ao laicado militante. A todos dirijo uma saudação amiga e fraterna, como também aos consagrados, que tão carismaticamente integram a nossa Igreja local. A todos agradeço e por todos dou graças.
Prossigamos então. E consideremo-nos a partir de Deus e da omnipotência do seu amor, que tudo fará através de quem realmente acolha e generosamente veicule o Espírito recriador de todas as coisas em Cristo. - Prossigamos pois e confiemos sempre!
 + Manuel Clemente
Sé do Porto, 5 de Abril de 2012

terça-feira, 3 de abril de 2012

Faleceu Manuel Guedes Ferreira da Conceição.


Faleceu hoje 3 de Abril em Vergada
Manuel Guedes Ferreira da Conceição

Nascido a 1 de Maio de 1924.
À Viúva e Família sentidas condolências
e votos de pesar,
com o testemunho da Oração e Solidariedade.
Pai de oito filhos dos quais dois o Senhor já chamou.
Personalidade singular
e prestigiada no meio.
Empreendedor Empresário Industrial da Cortiça
e amigo da Vergada 
e Comunidade Paroquial.
Funeral quarta-feira dia 4 de Abril às 18.00 horas
na Igreja Matriz da Vergada.
Encontra-se em câmara ardente na Capela Mortuária
contígua à Igreja.
“ Aqueles que amamos nunca morrem,
Apenas partem antes de nós”
Só se morre quando se é esquecido!

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Palavra do Pastor da Diocese :Dos Ramos de agora à Páscoa da vida!


Dos Ramos de agora à Páscoa da vida!
Amados irmãos, deixai-me perguntar em voz alta: - Que ramos somos nós, que capas estendemos, que hossanas cantamos, recebendo Jesus nesta Jerusalém de hoje?
Ramos, ramos primaveris geralmente belos e reverdecidos, abrindo em flor e prometendo frutos… Nada melhor, para apresentar a Jesus que se abeira, eterna juventude do mundo. – Mas somos realmente assim, renovados pela conversão quaresmal, renascidos na água viva do Espírito (mesmo em tempo de seca meteorológica)?
 - E as capas estendidas para atapetar a sua passagem, somos nós também? Capa é cobertura e ornamento desejável. Assim as nossas vidas e os seus aconchegos, como os sinais que damos do que queremos ser. – Estão assim estendidas, para Jesus passar? Na humildade em que avança, nada força ou esmaga. Mas podia deixar – isso sim podia! – as marcas visíveis da sua passagem sobre as nossas vidas, assim o deixássemos…
- E ouvem-se os hossanas, na aclamação constante que lhe havemos de dar? – Foi, é e será a vida de nós todos o que ali ouvíamos: ramos reverdecidos na seiva evangélica; capas estendidas a atapetar o caminho que Jesus prossegue, na humildade de tantos humildes, na fragilidade de muitos e muitas? Hossanas convictos ao Evangelho vivo que entra na cidade?
Caríssimos irmãos, de todas as idades que a eterna juventude de Cristo vai registando em vós: a resposta afirmativa, constante e entregue que dermos a tais perguntas é muito urgente e indispensável, para que a Semana Santa, hoje inaugurada, deveras o seja. Se lembrarmos aqueles factos de modo cerimonial apenas, corremos o risco de repetir, em parte ou no todo, o que sucedeu depois: a fuga dos discípulos no Horto das Oliveiras, a viragem negativa do povo no pretório de Pilatos… E não quero adiantar perigos piores, como os flagelos, a coroa de espinhos, a troça de muitos e a morte na cruz, da autoria imediata dos soldados, mas com o descaso ou a conivência de tantos…
Não, amados irmãos, nós não queremos ser assim. Bem pelo contrário, queremos ser mais convictos na adesão e mais persistentes no seguimento de Cristo. Isto havemos de ser, pois só queremos, só podemos ser assim. Como o pequeníssimo grupo que O acompanhou até ao Calvário; ou mesmo, segundo o quarto Evangelho, como a Mãe de Jesus e o discípulo amado. Isso sim, queremos ser.
E não só contemplativamente, fixando-nos num passado que não passa, mas também activamente, para o futuro que com Cristo há de acontecer. Acompanhando-O em tudo e em todos onde Ele se assinala hoje, na cidade em que entra, nos lugares onde mora e nas vidas em que nos espera.
Sejamos então verdadeiros ramos e reverdecidos, pela seiva forte da caridade autêntica. Reconheçamo-Lo onde sempre passa, no humilde jumento dos factos mais simples, das coisas mais pobres. Aí, precisamente aí, onde devemos fixar finalmente os olhos, já desiludidos de tanta espectacularidade vazia. – Pois não foram infelizmente outras, as muitas miragens que nos puseram em “crise”?
Jesus Cristo entra na cidade como entrou então. Confessemo-lo de vez, acolhendo a simplicidade que nos traz e propõe. Dificilmente voltaremos à caricatura de paraíso que o consumismo prometia - e apenas a alguns. Obrigatoriamente nos recuperaremos mais sóbrios e solidários. [Deixai-me citar a propósito duas intervenções recentes de reputados analistas económicos. O primeiro, professor parisiense: “O que temos é uma sociedade em que quando as necessidades estão satisfeitas é preciso criar outras para se continuar a crescer. Temos o nosso destino ligado a esta lógica e é daí que temos de sair. […] É uma consequência da lógica desta sociedade de crescimento que, depois dos anos oitenta, não teve outro objectivo senão prolongar a ilusão do crescimento e entrou numa bolha financeira. Esta começou por ser uma crise financeira, mas é também uma crise económica e, acima de tudo, uma crise de civilização”. Serge Latouche, entrevista ao Público, 19 de Março de 2012, p. 14). O segundo, presença informada e lúcida nos nossos media gerais e eclesiais: “O mercado tem limites, nem tudo se compra e se vende. Aí os cristãos são chamados a desempenhar um papel essencial, não pelo que dizem, mas pela maneira como vivem. Até porque, com o colapso do comunismo, muitos passaram a agir como se não existissem normas morais na esfera económica: vale tudo para ganhar muito dinheiro e depressa. O setor financeiro – responsável, através do crédito, por boa parte da ‘onda consumista’ – cresceu exageradamente nos últimos vinte anos, sobretudo nos Estados Unidos. E, sem adequada regulação, levando à crise financeira global desencadeada pelo crédito hipotecário de alto risco nos EUA” (Francisco Sarsfield Cabral, Nós e o dinheiro. Além-Mar, Março 2012, p. 11).]
Para quem aclama Cristo, a sobriedade solidária e caritativa não é apenas obrigação, antes devoção: gosto e aprendizagem duma fruição que não destrói nem a natureza nem as vidas; vizinhança activa de quem descobre em cada pessoa o maior tesouro do mundo; educação diligente para que cada um desenvolva o melhor que tem, o melhor que é.
A solidariedade forçosa que hoje se impõe, há- de ser um hábito que melhores nos faça, tendo em vista o amanhã geral. Hoje recebemos Cristo: permaneçamos com Ele nos dias que se seguem e na inevitável Cruz, onde renasceremos para Deus e para os outros. - Nós e o mundo precisamos de Páscoa!

Deixai-me pontualizar ainda, nos tópicos maiores do ano pastoral que vivemos no Porto: família e juventude; viver em comunhão, formar para a comunhão.
É bom louvar a família, até em renovados hossanas pela sua evidente valia nas presentes dificuldades. – O que seria, de facto, de tantos que não podem sustentar-se já por si, se não fossem os apoios familiares que mantêm ou recuperam? Mas, assim sendo, sejamos coerentes e consequentes, priorizando na lei e nas práticas as necessárias garantias de viabilidade das famílias, na respectiva constituição e manutenção, como bem de primeiríssima ordem.
Família, que é muito mais do que um resultado fugaz de afectos variáveis, desprovidos da verdade pessoal, complementar e interpessoal que ela transporta. E é também – a família sempre – a primeira realização e escola da sociabilidade humana, nunca substituível e sempre a reforçar.
Também no que à juventude respeita, que não ficará de fora do contexto familiar. Sim, é verdade que, da adolescência para a juventude, atravessamos um período de individualização normal e retraimento espontâneo, em relação ao quadro infantil. Tanta coisa nova a apreender, tanto sentimento a despontar, quase caoticamente até, entre o crescimento físico e a informação cruzada e nem sempre boa… Situação esta que mais se partilha entre coetâneos do que no espaço familiar que era até ai. Período difícil para adolescentes, pais e educadores, que têm de se redescobrir nas obrigatórias diferenças. A própria adolescência de Jesus teve um momento destes, quando aos doze anos foi perdido e achado por Maria e José, com o aprofundamento da verdade própria, sua e deles (cf. Lc 2, 41 ss).
O mais que desejamos e pedimos, neste Domingo de Ramos assim conotado, é que cada família se redescubra sempre como lugar primordial de comunhão humana, onde se reforce a verdade pessoal e interpessoal de cada um dos seus membros. E Cristo nas famílias fará delas Igrejas domésticas, onde nasçam e cresçam os filhos de Deus por que o mundo espera. Na presente “crise” ganha maior atualidade e urgência a grande visão de São Paulo, assim transcrita: “… a criação encontra-se em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus” (Rm 8, 19).
E a vós, caríssimos jovens aqui presentes, em Jornada que é especialmente vossa, apelo convictamente ao que podeis e deveis dar, sobretudo uns aos outros. Refiro-me à grande capacidade que tendes de vos agregar e ouvir, ao idealismo que vos faz sonhar com um futuro de que não desistis, porque ainda antes não desiste o próprio Deus.
Amigos de Cristo como sois, nos ramos que hoje lhe levantais, nas capas que agora estendeis, nos hossanas que também bradais, acolhei a Cristo uns nos outros, conhecei-O sempre mais e melhor e dai testemunho evangélico no mundo escolar e juvenil que é o vosso. Ganhareis assim a experiência viva duma Igreja jovem, em que vos continuareis a apoiar depois, na concretização familiar, profissional ou vocacional das vossas existências. - Continuai assim, dos Ramos de agora à Páscoa da vida!
Amados irmãos e irmãs: - Aí passa Jesus, aqui o temos hoje, para aclamar e seguir. Na Cruz da próxima sexta-feira distinguiremos já os primeiros fulgores da Páscoa. E, diante das dificuldades a ultrapassar no tempo em que estamos, mesmo quando não soubermos logo como fazer, saberemos decerto com Quem o faremos: - Com Cristo, que entra na cidade para não mais sair dela! Como prometeu e a ressurreição garante: “Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos!” (Mt 28, 20). Prossigamos então, acompanhando-O até ao Fim, que é o absoluto recomeço das coisas.

+ Manuel Clemente
Sé do Porto, 1 de Abril de 2012